quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Culpa: Uma abordagem bíblica e patológica


 1. Uma abordagem bíblica da culpa

"Sentimento de culpa é a lembrança viva, insistente é deprimente de algum procedimento errado aos olhos de Deus, de conhecimento privado ou público, recente ou remoto, provocado pela falta de arrependimento, confissão e perdão."

       Culpa é aquele apito do guarda de trânsito que nos faz parar, aquele aguilhão que nos machuca, aquele peso que nos oprime, aquela sirene que não para de tocar. O sentimento que faz surgir um conglomerado de emoções desconcertantes, como medo, vergonha, remorso, baixa autoestima, nervosismo, desespero ( claro! dependendo do mal praticado). A culpa está emparelhada com a sensação de nudez moral. Nos casos mais intensos e mais graves não resolvidos, pode resultar em suicidou, como o caso de Judas.

      Enquanto não é imaginário nem doentio, o sentimento de culpa é uma graça de Deus, uma dor que cura, uma terapia saudável. Sem o peso da mão de Deus, dia e noite sobre sua cabeça, o tumor da culpa do rei Davi nunca seria espremido nem curado. Suas transgressões só foram perdoadas e seus pecados só foram apagados depois do incômodo da culpa, salmo 32. Mas a culpa não é um medicamento de uso contínuo. Uma vez bem sucedida no sentido de levar o paciente a admitir o pecado cometido, a se arrepender dele é a confessá-los sem rodeios, diretamente a Deus, a culpa se retira é só volta quando tiver de cumprir mais uma a mesma missão. O crente comete uma tolice e sofre desnecessariamente quando, depois de perdoado por Deus - contra quem em última análise pecou, continua a hospedar a culpa.    

     Para escapar da culpa, da vergonha e do escândalo, muitos pecadores tomam providências inúteis. Costumam abafar, acobertar, encobrir, esconder ou ocultar o pecado cometido. Outra providência de pouca duração é negar o que fato aconteceu. A família e as autoridades civis ou religiosa às vezes tentam engavetar o processo ou desqualificar os denunciantes ou as vítimas  em benefício  do verdadeiro culpado. Outro expediente que o transgressor  toma é inverter a culpa, como Adão fez: "foi a mulher que me deste por companheira que deu o fruto da árvore, e eu comi"(Gn 3.12). Culpa-se o diabo, os poderes ocultos, o decote da mulher alheia, o celibato, a genética, a educação recebida no lar, as oportunidades para o mal ( ex. Convite da mulher de Potifar) e coisas assim. Nem sempre a tolerância corrige o faltoso. A restauração de Davi só começou quando o profeta com dedo em riste falou para ele: " tu és o homem"(2 Sm 12.7). Nesse exato momento, Davi, o adúltero e assassino, abriu os olhos para sua "culpa" é sua "mancha" e subiu o primeiro degrau da  restauração.

      A palavra de Deus lança mão de pelo menos quatro iilustrações para mostrar que a culpa é de fato removida pela graça de Deus depois do tratamento dispensado pelo pecador. 

      No antigo testamento se usa a ilustração do cordeiro emissário. Mas o que significa bode emissário?  Todos os anos, no dia 10 do sétimo mês calendário judaico, realiza-se em Israel o dia do perdão, por meio do qual conseguia-se o perdão dos pecados de todo povo judeu. Depois do sacrifício do cordeiro vivo e confessava todas as iniquidades, as rebeliões e os pecados dos israelitas, colocando-os sobre a cabeça do animal, que, em seguida, era levado para muito longe, para o deserto, onde ficava para sempre ( Lv 16. 21-22).

     A segunda ilustração, é a ilustração da neblina. Mas como o perdão é realizado?
A palavra de Isaías a Israel por volta do ano 70 antes de Cristo não poderia ser mais amável e cheia de misericórdia, veja o que dizia a palavra de Deus: Eu faço desaparecer as suas ofensas, como se fosse uma nuvem; como o sol faz desaparecer a neblina da manhã, assim eu faço desaparecer os seus pecados. Portanto volte para mim, porque eu já paguei o preço do seu resgate Is 44.22. O que Isaías quer nos dizer? Eu apaguei a lista de todos males que você cometeu. Não restou nada dos seus pecados, mas volte para mim, volte! Eu salvei você. Diante de tais palavras, é absoluta falta de bom senso carregar uma culpa que não existe mais.

       A terceira ILUSTRAÇÃO é a da profundeza do mar, mas uma vez, como está ilustração vai clarear a remoção de um sentimento de culpa? O profeta Miqueias, contemporâneo de Isaías dar uma notícia incrível ao povo de Israel e a todos que adoecem, física e emocionalmente, por continuarem sob a pressão da culpa, sem que haja a menor razão para tanto. Dirigindo a Deus, Miqueias diz: De novo terás compaixão de nós, pisarás as nossa maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Me 7.19.

A quarta e última, vem a ilustração da conta a pagar. Esta ilustração já foi dita pelo próprio Jesus, quando ele disse, em súplica colocou na oração do pai-nosso: "Perdoa as nossas dívidas".  Cada pecado cometido gera uma nota de débito. Muitos pecados cometidos geram muitas contas a pagar, uma dívida enorme tão impagável quanto a do homem que devia ao seu senhor uma dívida equivalente a trezentas toneladas de prata( Mt 18.24). Não importa o valor,  dívida é sempre dívida , nota de débito é sempre nota de débito, conta a pagar é sempre conta a pagar, manuscrito que deixa a descoberto o montante da minha dívida é sempre um documento válido conta mim. Se eu pedir emprestado mil toneladas de prata a trezentas pessoas diferente , continuo devendo trezentas toneladas de prata a cada um deles. A situação é insolúvel até que o próprio credor, por iniciativa própria e por sua maravilhosa graça, jogue na fogueira - mais ardente do que a fornalha acesa por Nabucodonosor - o manuscritos que me declara devedor. É isso que Deus faz: Deus perdoou todos os nossos pecados e anulou a conta da nossa dívida, ele acabou com esta conta, pregando-a na cruz ( Cl 2.13-14). Quando fico sabendo do significado da Cruz e passo a crer na expiação dos meus pecados por meio de Jesus, devo então, me considerar definitivamente livre do sentimento de culpa.


2. Uma abordagem patológica da culpa

     Uma associação entre pecado , doença e impureza esteve presente em praticamente todas a expressões religiosa. Entre os judeus , temos as prescrição de purificação no livro de Levítico e em outras passagens. Em algumas religiões há processos de santificação que passam por autoflagelação  e penitências, as quais funcionam como catarse na busca de alívio da consciência pela mortificação, na tentativa desesperada de acertar-se com o mundo espiritual. Estas manifestações demonstram o quanto as representações do sagrado vinculadas aos afetos da alma estão inscritas no psiquismo humano. Nesse sentido, é significativo o drama da vida de Cristo, apresentado como o cordeiro do sacrifício expiatório e substitutivo.

       No que diz respeito às culpas do dia a dia, existem as "reais" e as "imaginárias", as "fabricadas" e a "neurótica". Contudo, há também esperança para quem sofre de culpabilidade patológica.
      Algumas pessoas, em uma conversação rotineira, pedem  desculpas por qualquer motivo, seja por tossir ou por escorregar na cadeira. Este cacoete linguístico indica um cuidado constante para não errar é uma tentativa de acertar ou agradar sempre. Quando percebo pessoas com comportamento desta natureza, que pedem dez-culpas a todo tempo, digo não tem dez, nem nove , nenhuma culpa; decifrando o jogo linguístico, elas costumam sorrir e se desarmam. Com alguma ajuda poderão se sentir mais livres  para desfrutar da existência sem medo, que é o que Deus deseja para todos.
       Por outro lado, há pessoas denominadas pela escrupulosidade e obsessividade constrangedora e limitante. Não querem incomodar e nem errar, e filtram tudo. Sentem-se erradas sempre e pedem desculpas até por existir. São inseguras, possuídas por um senso moral rígido e alimentadas por noções inadequadas a respeito de si mesmas. Descobre-se nelas, com frequência, um histórico de fortes cobranças e moralismo nas relações familiares vindo de pais e mães castradores, pregações acusadores ou outras ameaças. Essas pessoas aprenderam a desconfiar de se mesmas, a sofrer e a não desfrutar da vida. Incorporaram noções exageradas de culpa e impureza. Não sabem como descansar na graça de Deus, que está disposto a acolhê-los, pois carregam um enorme fado de culpa - neurótica, aprendida,que complica a situação. Um gracioso processo de aconselhamento ou psicoterapia pode quebrar as distorções, promover uma reordenação cognitiva ( conhecerei a verdade a a verdade vos libertará ) e libertá-las emocional e espiritualmente.
      Também existem pessoas que dificilmente admite estar erradas. Sofrem quando tem que pedir desculpas. Pedir perdão é ainda mais difícil; só mesmo quando precisadas admitem culpa, contorcendo-se e tentando se desculpar. Ser "durão" é algo encorajado em certas culturas. Na hedonista cultura brasileira, por exemplo, celebra-se um glamourização do transgressivo, estimula-se a esperteza e a busca de vantagem em detrimento do outro. Não existe pecado do lado de baixo do equador , e o que se canta. Os excessos deste processo cultural podem ser percebidos tanto nos territórios dominados pelos traficantes e policiais, como na corrupção política que dirige o país. Pena que estes poderosos não se sentem culpados! Como fazem falta pessoas como João Batista para enfrentar  tamanha insensibilidade ética.
      Um ser humano bem constituído é capaz de sentir e respeitar limites próprios e do outro. Só é possível o laço social quando se tem lei sobre todos. No plano individual, carregamos ou somos ativados pelo superego, nosso dinamismo ético - espiritual, a consciência trabalha pela lei e adquirida no processo de educação e formação de caráter, o que nos faz humanos maduros, responsáveis, capazes de sofrimento e fraternidade. Quando ele falha, temos difíceis processos de reeducação e socialização pela frente.
    O caso extremo da psicopatologia é a psicopatia. O psicopata é o narcisista frio, alguém incapaz de sentir culpa  ou remorso. O contrario, então, a capacidade de sofrer com a culpa, é sinal de vitalidade do equipamento psíquico, da existência de sensor moral é vida espiritual, de humanidade preservada.

3. Culpa e religião

"Felizmente, para qualquer pessoa - mesmo as mais afetadas por má educação, violência psíquica, bullying espiritual - é possível uma cura substancial dos transtornos e a retomada de uma vida digna"

      Alguns líderes cristãos são criadores e vítimas de imagens doentia de Deus, de um deus pequeno, complexado, vingativo, narcisista, semelhante a um guarda de trânsito sem misericórdia que fica nas esquinas escondidos para flagrar o faltoso para puni-lo. Assim se faz um deus diabólico, doentio.        Esse tipo de mensagem sobre Deus causa muito sofrimento, gerando nas pessoas sentimentos persecutórios e sensação de impotência e ausência de perdão. Pinta-se um deus instável, arbitrário, não confiável, como as divindades pagãs, que precisam ser aplacadas com sacrifício. Assim, de forma maldosa, sádica e até criminosa temos indústria religiosa do medo, que explora a franqueza de pessoas incultas e incautas. A periferia de algumas cidades grandes, como por exemplo São Paulo,  vêem-se cristãos paupérrimos e angustiados devido a cobrança de dízimos. Nas emissoras de rádio e televisão cultiva-se o medo: a pessoa tida como indigna de Deus pode perder a a salvação, ser tratada como herege e excluída da comunidade, dependendo do julgamento de terceiros. Isso aprofunda as fissuras psíquicas pre-existentes e adoece a relação com Deus.
         Tanto os sentimentos quanto as habilidades funcionais são ensinados pelos pais e demais instâncias formadoras. Aos conteúdos que se quer inculcar na criança e no adolescente agrega-se a carga emocional que acompanha o processo de socialização e educação. Este é um fenômeno universalmente e aplica-se a todos os âmbitos da vida, notadamente em questão de orientação religiosa e é de ordem sexual. Está presente na família, na igreja, na sinagoga, na mesquita ou no terreiro e é elemento decisivo para a saúde mental das futuras gerações.  Se a instrução vem pela via amorosa, afirmativas e paciente, encontramos pessoas emocionalmente saudáveis, com raciocínio mais tranquilo. Pais e mães que funcionam como nutridores emocionais espelham uma imagem de Deus amorosa, forte, justa, encorajadora. No entanto, se Deus é expresso com rigidez, criticismo, suspeitas e castigos, encontramos pessoas inseguras, sofridas e com dificuldades de crer na graça incondicional.  Assim, a construção da identidade segura, amorosa, ética tem a ver com os padrões desenvolvidos.
       Podemos ser controlados por culpas neuróticas, falsas e culturais. Algumas delas vem por meio da imposição legalista da cobrança de dízimos nas igrejas, medo por não cumprimento do tempo de jejum, de não ter orado ou lido a Bíblia suficientemente, de não ter participado de alguma campanha. Jesus lidava com pessoas de modo diferente. Aquele que estava oprimido encontrava acolhida, graça, proteção e respeito a sua individualidade.
        Há a autêntica culpa, sabida ou oculta, que é a transgressão objetiva e real do mandamento do amor. Neste caso, o Espírito Santo incomoda, esclarece, induz ao arrependimento e perdoa. Sl.19.12-13. Somos perdoados e libertos quando submetemos a nossa consciência ao Espírito de Deus e clamamos por perdão e graça aquele que sonda a mente e os corações. Pode orar assim: "Tu, Senhor, que sonda o meu interior e sabe o que há em mim, torna-se consciente de minhas faltas e guia-me pelo caminho da retidão".
       Para quem, mesmo sendo dedicado à oração, ainda se sente ameaçado pelas lembranças de pecados, um conselho: busque ajuda de um bom profissional ou de pessoas alegres e maduras na fé, que o ajudarão a desativar os mecanismos de sabotagem adquiridos. Sua mente, certamente, sofre devido à má digestão de experiências emocionais familiares, ao desconhecimento das boas novas relatadas nas Escrituras, ao estresse e a desordem psíquica. Um psicanalista ou psiquiatra poderá diagnosticar o problema, que tem reparação medicamentosa e/ou psicoterapeuta. Deus conduzirá estes profissionais, que são lápis em suas mãos.